Evolução Histórica



Do início do ambientalismo até a Eco-92


Compilação do livro Ética e Educação Ambiental, a conexão necessária (1996), Mauro Grün (Doutor em Ética e Educação Ambiental - University of Western Austrália).


Em junho de 1945, no deserto de Los Alamos, Novo México, Estados Unidos, o azul do céu transformou-se subitamente em um clarão ofuscante. A equipe cientifica liderada pelo físico R. Oppenheimer explodia a primeira bomba H. Apenas dois meses depois eram jogadas as bombas atômicas sobre as populações civis de Hiroshima e Nagasaki. O Homo Sapiens, esta espécie tardia surgida há pouco mais de um milhão de anos, havia conquistado o poder de destruição da Terra. Os seres Humanos adquirem, então, a autoconsciência da possibilidade de destruição do Planeta. Após o dia 6 de agosto de 1945 o mundo não seria mais o mesmo. Ironicamente, a bomba plantava as primeiras sementes do ambientalismo contemporâneo. Estávamos entrando na "idade ecológica".

 

Em 1962, Rachel Carson publica seu antológico Silent Spring, onde leva a público o problema dos pesticidas na agricultura e mostra o desaparecimento de espécies. Dotado de grande sensibilidade, editado na forma de livro de bolso, este trabalho atinge o grande público e torna-se um clássico do ambientalismo cotemporâneo. Em 1968, o ouvido atendo de Ehrlich escuta o tique-taque de outra bomba e publica The population bomb, no qual alerta para o crescimento exponencial da população mundial e para a inviabilidade da civilização moderna a médio prazo.

 

Herdeiro direto dos movimentos libertáios dos anos 60 e dos sonhos sixties, o ambientalismo chegava quastionando uma série de valores da sociedade capitalista. A proteção da natureza, o não-consumo, a autonomia, o pacifismo eram apenas algumas das muitas bandeiras empunhadas por aqueles que começavam a ser chamados "ecologistas". Ao menos até 1973 não podemos falar propriamente em "movimento ecológico". São tão diversos os matizes do que poderia ser chamado de movimento ecológico que autores como Dupuy (1980) preferem falar em "nebulosa ecológica". De qualquer modo, no início da década de 1970, os participantes crescem em número e importância e começam a irritar tanto a direita como a esquierda conservadora. Com a crise do petróleo, em 1973, vários países intesificam a corrida em direção à energia nuclear. Com isso, aquilo que antes eram anseios inderfinidos e efêmeros começa a tomar a forma de um movimento social organizado - o movimento ecológico. O combate antinuclear confere identidade às contestações ecológicas.

 

No ano de 1972, o tema da sobrevivência da humanidade entra oficialmente em cena na "Primera Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente", em Estocolmo. A educação ambiental ganha o status de assunto oficial na pauta dos organismos internacionais. Segundo a recomendação nuúmero 96 da Declaração de Estocolmo, a educação ambiental tem uma "importância estratégica" na busca pela qualidade de vida. Ainda no ano da realização da conferência de Estocolmo, técnicos do MIT - Massachusetts Institute of Technology - elaboram o relatório Meadows, encomendado pelo Clube de Roma (grupo de empresários preocupados com as consequências da crise ecológica).  A crise ambiental começa a ganhar seu espaço no meio empresarial. Em linhas gerais, este relatório pretende "relocalizar" o capitalismo em escala mundial e é duramente criticado pelos países do Terceiro Mundo. Liderados pelo Brasil, vários países do Terceiro Mundo formam um bloco de oposição às propostas de "crescimento zero"  contidas neste relatório. O principal argumento do bloco de oosição era que a aceitação de uma tal proposta implicaria necessariamente no congelamento das desigualdades sociais. Ao mesmo tempo, é publicado em Londres o Manifesto pela Sobrevivência, culpando o consumismo e o industrialismo capitalista pela degradação ambiental. No ano de 1975, a Unesco promove em Belgrado, ex-Iugoslávia, "The Belgrado Workshop on Environmental education". Nesse encontro internacional , que contou com a presntça de 65 países, são formulados alguns princípios básicos para um programa de educação ambiental. Na esteira de Estocolmo realiza-se, em 1977, a "Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental", em Tibilisi, Georgia, ex-URSS. Esta, basicamente, reitera os princípios estabelecidos em Estocolmo, reforçando a recomendação número 96 sobre o papel estratégico da educação ambiental, e formulando estratégias em níveis nacional e internacional. A conferência Tibilisi tem sido apontada como um dos eventos mais decisivos os rumos que a educação ambiental vem tomando em vários países do mundo, inclusive no Brasil.

 

Em 1983, em assembléia geral da ONU, é criada a Comissão Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento. Esta comissão é presidida pela sra. Gro Harlem Brundtland - primeira ministra da Noruega - e tem o objetivo de pesquisar os problemas ambientais em uma perspectiva global. Após seis anos de trabalho, em 1989, a Comissão publica os resultados no "Relatório Brundtland", ou, como é também conhecido, "Our Common Future". Dois importantes conceitos são cunhados no "Relatório Brundtland"; "desenvolvimento sustentado" e "nova ordem mundial". Este relatório caracteriza-se por uma mudança de enfoque, apontando para a conciliação entre conservação da natureza e crescimento econômico. O "Relatório Brundtland" preparou o terreno para a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e, em julho de 1992, no Rio de janeiro, ocorreu a maior reunião com fins pacíficos contando com a presença de 180 chefes de Estado e a participação de, literalmente, todos os países do mundo - a ECO-92.

 

Os anos 90 marcam uma mudança definitiva nos rumos do ambientalismo brasileiro. Inicialmente, o ambientalismo não teve uma grande recepção no Brasil. Vítima de uma concepção estreita e preconceituosa, as ideias sobre preservação ambiental foram consideradas uma espécie de luxo. Um tipo de capricho ao qual poderiam se entregar os países do Primeiro Mundo. De fato, o ambientalismo é fruto de contradições. Nasceu justamente no seio daqueles grupos apontados como os maiores usufruidores da degradação ambiental: as middle class européias e americanas. Isso fez com que a opinião pública brasileira e parte dos movimentos sociais organizados inicialmente olhasse com desconfiança para os ambientalistas. Hoje vivemos uma situação muito diferente. Esse processo começou a mudar, a partir de 1979, com a anistia política. Com o retorno dos exilados políticos, chegam também muitas ideias sobre meio ambiente com as quais estes militantes de esquerda haviam tomado contato na Europa e nos Estados Unidos durante os anos 70. Isso acabou fazendo do ambientalismo brasileiro um ambientalismo rico, complexo, multifacetado e plurilocalizado.


webTexto é um sistema online da Calepino
Marcos Criação