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Busca por novo padrão de consumo é centro de debate do SP+Limpa


A busca de conhecimento e da conscientização para encarar o desafio de preservar o ambiente e estabelecer novos padrões de consumo de recursos naturais estiveram no centro do debate promovido pelo seminário SP + Limpa, nesta terça-feira (5/06/12), na Cidade Universitária, Zona Oeste de São Paulo.  O seminário é uma iniciativa da Rede Globo São Paulo, do Globo Universidade e da Universidade de São Paulo (USP), com mediação da jornalista Monalisa Perrone. O evento teve como objetivo reunir setores da sociedade em torno da discussão sobre a Política Nacional de Resíduos Sólidos e refletir sobre o problema do lixo na cidade de São Paulo.


A primeira palestrante a falar foi Patricia Iglecias, professora da Faculdade de Direito da USP, que abordou os aspectos legais da destinação de resíduos sólidos no Brasil e destacou a necessidade de mudança de postura na sociedade e de reflexão sobre o padrão de consumo atual. O conceito de produção e consumo sustentáveis deve ser difundido, segundo Patricia, na busca da promoção de melhores condições de vida e de qualidade ambiental, atendendo às necessidades das gerações futuras, direito previsto na Constituição.


A professora reforçou o caráter de dupla titularidade que a Política Nacional de Resíduos Sólidos determina, gerando responsabilidades compartilhadas sobre o ciclo de vida dos produtos. "O titular não pode abandonar o resíduo como quiser, agora pertence à sociedade também. A lei é fantástica porque estabelece o que cada um deve fazer no sistema", afirmou.

Tais responsabilidades podem incentivar novas formas, mais econômicas, de gestão dos resíduos. É o que defende Sabetai Calderoni, presidente do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável (IBRADES). O modelo defendido por Sabetai é baseado em centrais locais de reciclagem, que, na cidade de São Paulo, atenderiam cerca de 220 mil habitantes cada, totalizando em torno de 50 unidades.   A atividade envolveria prefeitura, população e cooperativas em mecanismos de parcerias público-privadas (PPP). A economia na cidade seria de R$ 900 milhões por ano em transporte, mais os ganhos ambientais, segundo o especialista. No Brasil, de acordo com estudos apontados por Sabetai, poderiam ser poupados US$ 10 bilhões por ano.


Calderoni também propõe outras soluções, como centrais de gaseificação, biodigestores, processamento de poda de árvores e máquinas de reciclagem de resíduos da construção civil. O entulho, dessa forma, poderia ser reutilizado pelos governos em projetos habitacionais, pavimentação, mobiliário urbano e obras de drenagem urbana. "As tecnologias são muitas, as alternativas são imensas. Sustentabilidade não encarece, sustentabilidade valoriza", afirma.


É pelo viés da tecnologia também que Jorge Tenório, chefe do Departamento de Engenharia Metalúrgica e Materiais da Escola Politécnica da USP, apresentou a tomada de consciência sobre o problema da destinação dos resíduos sólidos no mundo. Tenório ressaltou o caráter recente da pesquisa científica em soluções sustentáveis para a destinação dos resíduos sólidos. O professor citou o caso do Love Canal como marco da preocupação com as consequências ambientais do descarte inadequado de lixo. A área, que se localiza nos Estados Unidos, era utilizada como aterro e causou uma morte por contaminação em uma área residencial vizinha nos anos 1970.


Assim como Patricia Iglecias, o professor considera o texto da Política Nacional de Resíduos Sólidos abrangente e completo, mas é cético quanto a sua aplicabilidade. "50% da destinação de resíduos estão em lixões no Brasil. Extrapolando o gráfico, chegaremos a 0% em 2035, não em 2014, como a PNRS determina. A política precisa mudar esse ritmo", conclui.

Um ator fundamental para garantir o cumprimento dessa lei é o catador. A professora Maria Cecília Loschiavo, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, abordou a importância desses profissionais para a transição da "descartabilidade para a economia baseada na sustentabilidade".


"Os catadores estabeleceram suas bases no lixo de cada um de nós, que se transformou no capital de muitos. Os 'vazios do capitalismo' se tornam a base e a essência de populações desprovidas que transformaram os resíduos em seu meio de vida", afirmou.


Loschiavo convidou a catadora Maria Dulcineia, que veio do Maranhão há 15 anos, para falar de como saiu da rua, livrou-se do consumo abusivo de álcool e começou a trabalhar na Coopamare, a primeira cooperativa de São Paulo. "Hoje eu consigo pagar meu aluguel, criar e manter minha filha na escola só com a renda do material reciclado. Além de tirar minha renda, estou ajudando um pouco. Para o planeta, é um alívio", disse.

Dulcineia também criticou a atitude da Prefeitura e das empresas da coleta de lixo em relação aos convênios com cooperativas, alegando falta de infraestrutura e pouco cuidado no manejo dos resíduos.

Carlo Ratti, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), encerrou o ciclo de apresentações, mostrando o projeto "Trash Track", que coloca rastreadores em diversos resíduos sólidos com o intuito de descobrir o destino final e as distâncias percorridas por cada um desses produtos quando saem das mãos do consumidor.

Ratti afirmou que essa iniciativa, testada inicialmente em Seattle, no noroeste dos Estados Unidos, em 2009, faz com que as pessoas monitorem o custo de transporte desses resíduos em relação ao processo de reciclagem, e induz uma mudança de comportamento ao informar as pessoas sobre o destino do que elas consomem.   O pesquisador também anunciou o início de um projeto com a Coopamare, utilizando técnicas de rastreamento para aprimorar o processo de coleta. O seminário foi encerrado com perguntas da plateia sobre diversos pontos abordados pelos palestrantes.



Autoridades

O governador Geraldo Alckmin e o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, estiveram presentes no seminário, e falaram sobre os avanços realizados em suas gestões na questão.

Alckmin anunciou nesta terça um conjunto de propostas, que incluem a universalização de coleta de esgoto no estado todo até 2020, o aumento da proporção de fontes renováveis na matriz energética paulista de 55% para 69%, e quatro novos acordos com o setor produtivo para o processo de logística reversa em pneus, óleo comestível, óleo combustível e telefone celular.

 


Kassab prometeu aumento da abrangência na coleta seletiva e ressaltou a melhora da situação no período em que está na Prefeitura. "A coleta era praticamente inexistente. Ainda é baixíssima, mas foi multiplicada por 10", afirmou.


Fonte: G1 - Debate sobre Novo Padrão de Consumo

Publicado em 05/06/2012


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Marcos Criação