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Entrevista sobre emissões de carbono e mudanças climáticas


Nos vários cursos que vem ministrando sobre o aquecimento global pelo país, a jornalista Miriam Duailibi, presidente do Instituto Ecoar, com sede em São Paulo, não se limita a apontar causas e conseqüências das mudanças do clima e as tecnologias em vários campos que hoje buscam contribuir para o dimensionamento do problema.

Especialista em Sustentabilidade e em Educação para as Mudanças Climáticas, ela faz questão de, nesses encontros, estimular reflexões sobre o que podemos fazer diante desse desafio, de modo a influenciar boas práticas, promovendo mudanças de atitudes e de hábitos hoje arraigados na sociedade.

É comum em seus cursos - o próximo programado para dia 25/07/08, na sede da entidade - ouvir de Miriam críticas a um novo nicho de negócios, impulsionado pela preocupação lícita em relação ao aquecimento global: a oferta de serviços de plantio de árvores, com a proposta de neutralizar emissões de dióxido de carbono - o principal gás causador de efeito estufa -, produzidas pelos mais variados eventos, de shows musicais a campeonatos desportivos.

AmbienteBrasil conversou com Miriam Duailibi sobre esse movimento. Confira. 

AmbienteBrasil - A senhora é uma ativista ambiental que vem questionando os procedimentos de plantar árvores para neutralizar emissões de carbono, algo marqueteiramente divulgado em relação a vários eventos. Por que essa crítica?

Miriam Duailibi -
Porque esta questão de neutralização de carbono, por meio do plantio de árvores, tem sido colocada como alternativa  principal no combate ao aquecimento global, algo como uma panacéia universal. Mas ela é apenas uma das muitas medidas que precisam ser tomadas. Como plantar árvores é barato - e não demanda mudanças em nossas práticas de produção, consumo, descarte e locomoção - acaba por ser a opção mais fácil e pode alienar as pessoas da discussão que realmente precisa ser feita, mantendo a reflexão e o debate em níveis superficiais, cosméticos. 

Plantar árvores sempre representa ganhos ambientais, mas isto não quer dizer que estejamos combatendo de fato o aquecimento global. Há inúmeros fatores que precisam ser analisados para saber se o plantio é, e por quanto tempo será, eficiente na captura de gases de efeito estufa. Há que se cuidar para que o plantio não provoque outro tipo de desequilíbrio ambiental, como no caso dos que usam espécies exóticas e ainda há que zelar pela qualidade das mudas escolhidas, sua resistência genética, sua adaptação ao ambiente. Os últimos estudos mostram que o risco de perda de mudas plantadas de Mata Atlântica, por exemplo, é muito significativa.

AmbienteBrasil - Há confiabilidade nessas empresas e entidades do terceiro setor que hoje se propõem a neutralizar emissões de carbono?

Miriam -
Como em todos os setores, existem as instituições confiáveis e outras, nem tanto. A questão das mudanças climáticas é muito complexa, séria e importante para ser reduzida ao simples pagamento para se plantar uma muda e, a partir daí, ganhar o direito de usar camisetas com a inscrição carbon free... "limpando" a consciência.

Plantar árvores é bom para melhorar o micro clima, para retenção de encostas, para recuperação de matas ciliares, para a estética, para recuperação da biodiversidade e também para seqüestrar gases causadores de efeito estufa, desde que esta atividade esteja aliada a uma estratégia de educação, de sensibilização, de conscientização, de mudança de atitudes, de práticas. E isto só as instituições mais sérias, com história construída no movimento ambientalista, têm feito.

AmbienteBrasil - Em termos práticos, o cidadão brasileiro está bem preparado para lidar com o aquecimento global?

Miriam -
Não, de forma alguma. O Brasil está atrasadíssimo no debate da questão da adaptação às mudanças climáticas. Nada, ou muito pouco, está sendo feito no sentido de preparar as cidades para a intensificação de eventos como as enchentes e ciclones, por exemplo.

Tenho conhecimento de alguns trabalhos que estão sendo desenvolvidos na área da agricultura, por órgãos governamentais. Algumas grandes empresas privadas também já estudam com seriedade as conseqüências sobre seus negócios e como se prevenir e se adaptar. Mas no país como um todo, temos nos limitado a nos vangloriar que somos menos emissores que os outros, graças aos biocombustíveis e à hidroeletricidade, o que é verdade, mas este fato em nada afeta a nossa vulnerabilidade.

Mesmo nos círculos ambientalistas, a discussão está concentrada na questão do combate ao desmatamento. É preciso que comecemos a nos preocupar com as inevitáveis conseqüências do aquecimento global, sob o risco de aumentarmos ainda mais o fosso da iniqüidade social e da injustiça ambiental em nosso país.

AmbienteBrasil -  Quais seriam os passos mais simples que cada um pode fazer em prol da redução de emissões de gases causadores de efeito estufa?

Miriam -
Em primeiro lugar, rever nossas práticas de consumo. Será que precisamos mesmo de todos os produtos e serviços que compramos?

Mudar nossas atitudes individuais, comendo menos carne, dando preferência a produtos locais e orgânicos, evitando o uso de sacolas plásticas, não desperdiçando água e energia, não deixando aparelhos em stand by, não tomando banho em horário de pico de consumo de energia, andando de bicicleta, caminhando etc.

Mas é preciso também atuar com o cidadão, cobrando do poder público políticas de transporte limpo, de coleta e reciclagem de lixo; eficiência energética nos prédios governamentais; aprovação de leis mais severas no combate ao desmatamento e à comercialização da madeira ilegal etc.

Não podemos nos esquecer da imensa força que a sociedade civil tem na promoção de mudanças. Temos que exercer o nosso poder de comunidade, de consumidores, de eleitores e de investidores. Só assim conquistaremos as mudanças necessárias para o enfrentamento deste problema que ameaça seriamente a continuidade de nossa caminhada enquanto espécie no Planeta Terra.

Fonte: Ambiente Brasil em 10/07/2008 

http://noticias.ambientebrasil.com.br/noticia/?id=39304


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